Assessoria de Imprensa digital

10 fev 2017

“Nós não temos a escolha se devemos usar mídia social, a questão é a forma como vamos usá-la” – Erik Qualman Seis horas da manhã e o relógio desperta para mais um dia de trabalho na vida de um assessor de imprensa.
Antes mesmo de tomar café, o jornalista corre para ver se o jornal já foi entregue em sua residência. Sim, lá estava ele com as notícias e manchetes do dia. O jornalista o folheia em busca dos releases que ele havia disparado para seu extenso mailing no dia anterior. Tinha certeza de que as matérias, ou pelo menos aquela sobre o lançamento de um produto da área de tecnologia, seria publicada, afinal a tinha encaminhado para a redação inteira daquele jornal, além de ter telefonado para confirmar se os jornalistas haviam recebido seu material. Saiu uma nota! O jornalista comemora o fato de seu material ter saído no principal jornal da cidade, embora esperasse um destaque maior já que o release enviado tinha duas paginas sobre o assunto, além de ter anexado fotos do novo produto. Mas tudo bem. O importante é que a informação foi publicada e ele poderá anexar este material ao clipping que está elaborando para seu cliente, que há de ficar satisfeito.

Colegas jornalistas hão de concordar que este é um recorte do trabalho de assessoria de imprensa tal qual a conhecemos hoje, mas que vem dando lugar a um novo modo de ver e fazer assessoria, pautado no diálogo com aquela que é considerada por Eric Qualman, autor do livro Socialnomics, a maior mudança desde a Revolução Industrial: a Mídia Social.

O livro discorre sobre como as mídias sociais estão transformando a forma como vivemos e fazemos negócios. Segundo o autor, os jornais impressos estão em crise, experienciando o declínio constante da circulação de seus exemplares. Em contrapartida, os blogs já somam 200 milhões e os usuários das redes socais não param de crescer. Para se ter uma ideia, se o Facebook fosse um país, ele seria o terceiro maior do mundo.

Um gigante deste globo terrestre virtual. Inserido neste ambiente digital, o assessor de imprensa tem procurado revisitar suas práticas profissionais. O “releasemania”, expressão usada para definir aquela série de matérias que enchem a caixa dos jornalistas de redação, cede lugar ao social media press release, com outros elementos, mais atrativos, tais como links, download para fotos, infográficos e conteúdo multimídia para ilustrar as matérias.

Textos longos direcionados para um grande mailing genérico saem de cena e abrem espaço para uma maior segmentação, na qual mapear os principais blogueiros, influenciadores e especialistas mostra-se muito mais eficaz quando o objetivo é atrair o interesse de jornalistas e, por consequência, o público de interesse.

Nessa perspectiva, talvez fosse mais interessante para o jornalista fictício do começo deste texto, que sua matéria sobre o lançamento de um produto da área da tecnologia fosse publicada em um blog especializado no assunto, ao invés da notinha que ele conseguiu no principal jornal da cidade. Por uma simples razão: quem lê e acompanha um blog sobre tecnologia quer receber informações sobre o assunto, o que já não se pode necessariamente dizer do assinante do jornal. Mais do que isso, estamos falando de uma nova forma de transmitir informação.

Ao invés de “empurrar” as matérias aos jornalistas e ao público, eles é que são atraídos até a informação. É a assessoria de imprensa digital. Um exemplo clássico é o case da Petrobras. Em 2016 e pelo sexto ano consecutivo, a empresa ganhou o “Prêmio Empresas que Melhor se Comunicam com Jornalistas”, na categoria Petróleo e Gás. Promovida pela Revista Negócios da Comunicação, a premiação reconhece a qualidade do relacionamento que empresas mantêm com os jornalistas e o mercado.

A empresa investiu em uma sala de imprensa com conteúdo de textos, áudios, vídeos, fotos e transmissão ao vivo de coletivas. Atualmente nada menos do que 22 mil jornalistas são cadastrados na Agência Petrobras para receber seu conteúdo. Mas o grande segredo deste sucesso está no blog “Fatos e Dados” criado pela própria empresa, um espaço que se propõe a gerar diálogo e dar transparência aos acontecimentos recentes da Petrobras, inclusive aqueles que culminaram com inúmeras crises de imagem e reputação.

Estamos presenciando a evolução do chamado público-alvo, que em outros tempos já foi considerado passivo, meramente um receptor de informação. As redes sociais conferiram poder a este público, na medida em que, com apenas um clique, ele interage com a informação e é capaz de se tornar embaixador de uma marca ou detrator dela, afetando positiva ou negativamente a reputação de um produto ou empresa.

O exemplo mais recente é o site Catraca Livre, alvo de uma avalanche de críticas por sua cobertura do acidente aéreo com o time da chapecoense. Ao optar por mostrar diferentes ângulos da tragédia, a publicações foram consideradas insensíveis pelo público.

Nesse contexto predominantemente digital, no qual “não temos a escolha se devemos usar mídia social, o assessor de imprensa precisa resignificar seu trabalho: atualizando seus conhecimentos e readequando suas práticas para que seja possível colher resultados. Ainda assim, existem aspectos do trabalho de um assessor que não precisam – e nem devem – ser mudados. Um bom assessor de imprensa ainda cultiva e investe na construção de relacionamentos pautados no respeito, na confiança e na ética profissional.

Ainda precisa de uma boa redação e do famoso ‘faro’ para a notícia. Ainda precisa de sensibilidade para encontrar personagens e contar histórias relevantes. Precisa, acima de tudo, acreditar e investir em uma comunicação mais humana, estabelecendo diálogos verdadeiros com seu público.

 


Texto Marina Aguiar Jabur *
Assessora de Comunicação

Imagem: Visual Hunt

 

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