Democracia e os desafios do jornalismo digital

05 maio 2018

Os desafios e potencialidades do jornalismo na era digital e seu papel na democracia foram apresentados ontem na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ) na palestra do jornalista Edwy Plenel,cofundador e presidente do Portal Mediapart.

Tendo atuado no Le Monde por 25 anos, Plenel contou detalhes de sua vasta experiência, destacando a migração do impresso para o digital. Diante do cenário atual, marcado por forte polarização nas redes sociais,discursos de ódio e desrespeito ao pluralismo de ideias e visões de mudno, o jornalista acredita que a profissão precisa se reafirmar como o ‘coração da democracia’.

Em tempos de mídias digitais, em que há vários polos emissores e opinião e informação disputam espaço,  o jornalismo deve resgatar o caráter de ineditismo, interesse público e o valor-notícia para reconquistar os leitores. “No Mediapart, não querems ser donos da verdade, não somos isentos. Temos um modelo de negócio participativo, não estamos acima do público”, afirma.

Pós-verdade e a era da opinião

Na maré da pós-verdade, Plenel destaca que a maior batalha não é só pela publicidade e pelo modelo de lucro baseado em cliques, mas também em cativar os leitores. Se por um lado a revolução tecnológica possibilitou mudanças socioculturais e econômicas, ela também fez emergir o que o jornalista francês chamou de “era da opinião”.

“Essa profusão de opiniões está desfocando a atenção da qualidade da informação para a quantidade. Lemos tantos conteúdos que pensamos ser gratuitos,quando nossa atenção é a moeda de troca”, problematizou.

Fake news não é novidade

Nesse campo de batalhas do jornalismo digital, Plenel considera errôneo dizer que as fake News são novidades. Para ele, as notícias falsas sempre existiram, influenciaram guerras e questões políticas. Na verdade, o que mudou foi a potencialidade que as redes sociais e os mecanismos de busca trouxeram, aumentando o alcance e visibilidade desses rumores.

“O caráter pluralista e democrático da mídia, seja impressa ou digital, não pode ser gangrenado pela ditadura do like, do conteúdo para fruição, dessa lógica de piada e diversão. Duas palavras são chaves do sucesso dos novos tempos: aliança e confiança. Sem isso, somos apenas mais um veículo no meio de tantos”, reforçou.

Jornalismo participativo

Em termos de jornalismo participativo, Plenel acredita que é muito importante que os novos sites e portais criem espaços para que o público envie suas contribuições. “Não se trata de emitir verdades, mas de mostrar as versões para que o público tenha seus próprios debates, respeitando o contraditório e visões distintas”, concluiu.

Ele terminou sua apresentação mostrando entusiasmo diante dos nichos e oportunidades que o digital oferece. “Você pode se especializar em um conteúdo bem checado sobre saúde e buscar ser lido pelos médicos de referência. Ainda há espaço para a mídia independente, então, é preciso convicção no nosso papel de elevar o debate público”, concluiu.

O portal de jornalismo independente Mediapart pode ser acessado pelo link https://www.mediapart.fr/

 

Texto: Isabela Pimentel 
*Jornalista, Historiadora e  Especialista em Comunicação Integrada
Imagem: Divulgação   

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05/05/2018 Isabela Pimentel

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