Quem guarda a memória empresarial?

29 ago 2014

Voltar ao passado para contar a história de uma organização não é uma tarefa fácil e tem sido um desafio constante para as empresas que resolveram investir nesta atividade.

O resgate e a conservação da dimensão histórica da memória empresarial, ou seja, do conjunto de sensações, lembranças e experiências que as pessoas guardam de sua relação direta com uma empresa, é hoje um dos maiores patrimônios das organizações.

Com o desenvolvimento das redes sociais e a consolidação da comunicação como uma interface entre os públicos e as grandes empresas, a reputação tornou-se extremamente associada ao conceito de memória. Quando bem utilizada, a memória empresarial pode se converter em um instrumento que aproxima o público interno do externo, sendo tal processo liderado pela comunicação corporativa.

Ao utilizar a memória para estimular o  pertencimento e orgulho dos colaboradores que fazem parte da companhia, as empresas resgatam valores e transmitem sua missão, visão e valores, trazendo efeitos positivos ao cotidiano da organização. Tomar a história nas próprias mãos é prova da responsabilidade que a empresa tem com seu passado. Daí a importância de um trabalho integrado entre profissionais de comunicação, historiadores e gestores.

A Historiadora Karen Worcman (2004: 23) defende que o modelo de memória na empresa seja o agente catalisador no apoio aos negócios, elemento de coesão entre responsabilidade social e história. Ao contar sua história, uma empresa produz e compartilha conhecimento sobre si mesma, gerando um valor agregado, que interfere na tomada de decisões da organização.

A memória empresarial, quando utilizada de forma planejada e alinhada aos objetivos da comunicação corporativa, pode ser mais uma das ferramentas para fortalecer o relacionamento com o público interno. Além dos tradicionais jornais de veiculação interna, revista semestral e a intranet, publicações que contem a história da empresa chamam atenção do público, especialmente pelas informações que, muitas vezes, não são de conhecimento dos colaboradores.

Ao abrir suas portas, contar sua história, reviver os feitos do passado e homenagear os colaboradores que construíram sua trajetória, a empresa se diferencia em relação às demais concorrentes de seu setor: a transparência e o acesso às informações de caráter histórico são cada vez mais tomados como ativos para fortalecer a reputação da empresa.

Ao articular o trabalho de construção da memória empresarial ao planejamento da comunicação interna, a empresa estará, não apenas divulgando informações sobre sua história, mas também, estreitando seu relacionamento com seu público interno, fortalecendo seu posicionamento no mercado em que atua e aumentando sua credibilidade.

Para realizar um trabalho de comunicação empresarial alinhado à memória empresarial, é preciso investir na formação de uma equipe interdisciplinar, que alie conhecimentos de gestão, história e, especialmente, da cultura da corporação para a qual o trabalho será desenvolvido.

 

Lembrar, e comunicar

Quando completou 90 anos, em 2008, a Votorantim iniciou uma série de iniciativas, como o lançamento do livro “Uma História de Trabalho e Superação”, de autoria do jornalista Jorge Caldeira. Foi também criado o Espaço Votorantim, sobre a história do grupo e a industrialização do país.

O projeto é responsável por coletar, conservar, organizar e divulgar o material histórico relativo à memória do grupo. Foi idealizado com o objetivo de transformar a experiência acumulada ao longo da história da empresa em conhecimento histórico disponível à sociedade.

Lançado oficialmente em 2003 veio para celebrar os 85 anos do grupo e foi desenvolvido em parceria com o Museu da Pessoa. Ferramenta que ajuda no resgate da história e identidade da empresa, a memória reforça a reputação, cultura, valores e crenças, inspirando credibilidade nos colaboradores, especialmente, por despertar a sensação de pertencimento. A história, contada pelos funcionários, cria narrativas compartilhadas, que reforçam a ideia de memória empresarial em rede.

Reconhecendo sua importância ao longo da história do país, a empresa investiu em pesquisa e produziu o Memória Votorantin, em um trabalho de 7 anos, que reuniu documentos, depoimentos e fotos. O museu hoje ocupa 410 m2 no térreo da sede do grupo, no centro de São Paulo. No ano de 2005, foi inaugurado o centro de documentação.

Atualmente, o projeto atua em duas frentes: uma dedicada à gestão do acervo histórico e outra focada em propostas educativas para os diversos públicos. Todo material está disponível no site www.memoriavotorantim.com.br

Outra empresa que criou um projeto de memória foi o BNDES, tomando como gancho a celebração dos 50 anos de existência. A Pfizer Brasil também aproveitou as comemorações de cinquentenário para fortalecer a relação com seus públicos e dar visibilidade à marca, fazendo a publicação de um livro, exposição fotográfica e vídeo institucional.

 

Case Petrobras: memória e comunicação institucional

A criação de memórias empresariais cresceu consideravelmente nos últimos anos em todo o mundo e, consequentemente, no Brasil. Muitas iniciativas se materializaram na publicação de livros, exposições, criação de “museus virtuais” e Centros de Documentação ou de Memória (a Fundação Bünge em 1994, a Petrobras em 2002, a Votorantin em 2003, o Pão de Açúcar em 2003, a Natura em 2003, dentre outras).

Desde o ano de 2002, a Petrobras vem desenvolvendo um conjunto de ações para recuperar marcos históricos da companhia, através da organização e coleta de dados, depoimentos e criação de um museu virtual. O projeto Memória Petrobras surgiu em 2004, como continuidade do Projeto Memória dos Trabalhadores, de 2002, em parceria com o Sindicato dos Petroleiros. Apenas no primeiro ano, foram 260 depoimentos, nas 7 unidades da empresa.

O sucesso do projeto levou à formação de mais três linhas de pesquisa: Memória do Conhecimento, Memória do Patrocínio e Memória das Comunidades, culminando na produção de livros e realização de exposições físicas e virtuais.

A decisão da empresa foi que o acervo fosse utilizado como ferramenta de relacionamento e valorização da marca da empresa junto aos colaboradores e a sociedade. Sendo assim, criou-se uma área na Comunicação Institucional para dar continuidade ao projeto. O objetivo do projeto é preservar, integrar e divulgar a história da companhia, principalmente pela perspectiva de seus trabalhadores e parceiros.

Com o passar do tempo e o crescimento do projeto, foi preciso capacitar profissionais locais para desenvolver projetos de memória. Em parceria com a Universidade Petrobras, foram organizadas turmas para formas os representantes dos projetos, os multiplicadores.

No site do projeto http://memoria.petrobras.com.br/ são disponibilizados documentos textuais, iconográficos e audiovisuais, com cerca de 4 mil registros orais. A memória empresarial é tomada como suporte para construção da identidade coletiva.

 

Como trabalhar a memória  da empresa na comunicação interna?

O desenvolvimento de um trabalho de memória da empresa precisa estar alinhado aos objetivos de comunicação estratégica, para evitar a chamada dissonância cognitiva, ou seja, separação entre o que se diz e a realidade propriamente dita.

Para apresentar a memória empresarial ao público interno, há diversos mecanismos a serem adotados. Um deles é iniciar o desenvolvimento de um plano de comunicação interna que vise conscientizar os colaboradores sobre a importância da preservação da memória, com a realização de quizz com perguntas históricas, criação de uma data temática para relembrar e celebrar a história da empresa, dentre outros.

É fundamental, porém, que as ações de comunicação para comunicar a memória não sejam esporádicas e realizadas sem prévio planejamento. Como produtos da articulação memória-história pode-se ter:

– Livro Histórico e institucional, elaborado por especialistas, fruto de pesquisa histórica;

– Folder para novos empregados, contando mais sobre a história da empresa;

– Área no site institucional que contenha a história da empresa;

– Kits para estudantes, pesquisadores e imprensa, que contenha informações relevantes sobre a história e trajetória da corporação;

– Produção de documentário histórico baseado no conceito de Storytelling, proposto pela JourneyCom, agência de publicidade em São Paulo, através do qual as histórias individuais ganham destaque, com o objetivo de gerar envolvimento;

– Vídeos com depoimentos de funcionários (interno);

– Exposição temática;

– Criação de um Centro de Memória virtual.

Leia também 

Lembrar, para pertencer: Memória empresarial como ferramenta de relacionamento com o público interno

Uso do storytelling na comunicação interna

 

Texto: Isabela Pimentel 

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29/08/2014 Isabela Pimentel

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